Alimento ou produto usado por anos sem problema pode passar a causar alergia na vida adulta
07/11/2026

Sensibilização do sistema imunológico explica reações tardias; frutos do mar, castanhas e amendoim estão entre as causas de crises graves, como a anafilaxia
Uma pessoa pode passar décadas comendo camarão, usando o mesmo perfume ou manuseando o mesmo produto sem qualquer reação e, já adulta, desenvolver alergia a ele. Ter tolerado um alimento ou uma substância por anos não garante que o corpo vá responder do mesmo jeito para sempre, porque a reação alérgica nem sempre aparece no primeiro contato: ela pode surgir depois de um processo de sensibilização do sistema imunológico.
Normalmente, o organismo lida com os diversos componentes dos alimentos e do ambiente sem reações nocivas. Essa tolerância, porém, pode mudar por causa de infecções, de alterações hormonais, da genética, de exposições ambientais e de mudanças nas mucosas. Quando isso acontece, o sistema de defesa passa a tratar certas substâncias como ameaça e responde de forma exagerada.
Nas alergias de reação imediata, a resposta envolve os anticorpos chamados imunoglobulina E, a IgE, que ajudam o organismo a reconhecer os agentes que provocam a crise. Por isso, os sintomas podem aparecer até em quem nunca teve problema com aquela substância.
Os pesquisadores também olham para a microbiota intestinal, o conjunto de microrganismos que participa da regulação do sistema imune e da proteção da barreira do intestino. O uso de antibióticos ou uma dieta pouco variada podem alterar esse equilíbrio e influenciar as respostas do corpo. Os estudos disponíveis, no entanto, mostram sobretudo associações e muitos se concentram na infância, o que não permite atribuir só à microbiota o aparecimento de alergias em adultos.
O contato repetido com certas substâncias também pode favorecer as reações, em especial no ambiente de trabalho. Entre os agentes ligados às alergias ocupacionais estão tinturas, produtos de limpeza, cosméticos, resinas, borracha, fragrâncias, conservantes e metais, materiais presentes na rotina de quem atua na indústria, na saúde, na construção civil e na agricultura. Calor, umidade, uso de luvas por muito tempo e feridas na pele deixam o trabalhador mais vulnerável.
Na vida adulta, frutos do mar, castanhas, amendoim e alguns medicamentos estão entre as causas de reações alérgicas graves. Em certos casos, o contato pode levar à anafilaxia, quadro que pode matar e que exige aplicação imediata de adrenalina no músculo e atendimento médico de urgência.
A confirmação depende de avaliação de um profissional de saúde, que pode pedir o teste de puntura, usado para investigar algumas alergias imediatas, ou os testes de contato, que servem para apontar substâncias ligadas a reações tardias na pele. O exame escolhido varia conforme os sintomas e o tipo de alergia sob suspeita.
Crises repetidas e sem diagnóstico trazem prejuízos que vão além do corpo, atrapalhando o sono, o rendimento no trabalho e a convivência social. Nem toda alergia que surge na idade adulta desaparece, mas afastar o agente causador, com orientação profissional, e fazer imunoterapia quando houver indicação ajudam a controlar as crises e a diminuir o peso delas no dia a dia, conforme publicou a edição impressa do Correio de Hoje desta sexta-feira 6.
O problema tende a crescer. As doenças alérgicas já atingem cerca de 30% da população mundial, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que, até 2050, metade das pessoas do planeta poderá ter algum tipo de alergia. No Brasil, a rinite alérgica afeta aproximadamente 30% da população e a asma alérgica, cerca de 20%, segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), como mostrou o Agora RN em junho, na reportagem sobre o alerta da OMS.
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