Estudo com 183 mil mulheres associa reposição hormonal a risco 16% menor de Alzheimer, com variação por idade
01/09/2026

Estudo acompanhou 183.450 mulheres na pós-menopausa por 13,3 anos, em média, e registrou quase 4 mil casos de demência. Foto: Pexels
Redução chega a 26% entre quem passou por menopausa cirúrgica; efeito é maior se o tratamento começa dos 46 aos 56 anos
A terapia de reposição hormonal, usada há décadas para controlar ondas de calor, suores noturnos e outros sintomas da menopausa, pode ter uma relação também com a saúde do cérebro. Um amplo estudo encontrou risco 16% menor de Alzheimer entre mulheres que fizeram o tratamento na comparação com aquelas que nunca utilizaram a terapia.
A pesquisa, publicada na revista científica Alzheimer’s & Dementia, analisou dados de 183.450 mulheres na pós-menopausa acompanhadas, em média, durante 13,3 anos. Nesse período, foram registrados quase 4 mil casos de demência.
Pesquisadores das universidades de East Anglia e Exeter, no Reino Unido, investigaram mulheres que utilizaram terapia de reposição hormonal (TRH) por pelo menos um ano e consideraram fatores biológicos, genéticos e outras condições capazes de interferir no risco.
Os resultados mostraram que mulheres que fizeram reposição hormonal apresentaram probabilidade cerca de 10% menor de desenvolver demência e 16% menor de ter Alzheimer. A associação, porém, não foi igual para todas.
A diferença mais acentuada apareceu entre mulheres que passaram por menopausa cirúrgica: nesse grupo, o risco de desenvolver qualquer tipo de demência foi 26% menor entre as usuárias da reposição hormonal.
O histórico reprodutivo também parece influenciar essa relação. Mulheres naturalmente expostas ao estrogênio por menos tempo ao longo da vida — seja pelo início tardio da menstruação ou pela menopausa precoce — apresentaram risco 16% menor de demência quando fizeram TRH.
Outro fator foi a genética. A associação entre reposição hormonal e menor risco de demência apareceu com mais força entre portadoras da variante APOE4, conhecida por aumentar a predisposição ao Alzheimer. Esse grupo é considerado de maior risco para a doença e dispõe de menos possibilidades de prevenção.
A idade em que a reposição hormonal começou também apresentou relação com os resultados. Mulheres que iniciaram a TRH entre 46 e 56 anos tiveram maior redução no risco de demência. O resultado reforça a chamada hipótese da janela crítica, segundo a qual a terapia hormonal pode produzir benefícios maiores quando iniciada perto da transição para a menopausa, em vez de mais tarde — o mesmo nível de associação não apareceu quando o tratamento começou fora dessa faixa etária.
A nova pesquisa dá continuidade a um estudo anterior da Universidade de East Anglia que havia relacionado a reposição hormonal a melhor memória e cognição e a maiores volumes cerebrais em idades avançadas entre mulheres portadoras da APOE4.
Os resultados também abrem espaço para uma abordagem mais individualizada da reposição hormonal: tipo de menopausa, idade de início do tratamento, exposição ao estrogênio ao longo da vida e perfil genético podem ajudar a identificar quais mulheres teriam maior possibilidade de benefício.
Os dados mostram uma associação e não significam que a reposição hormonal seja uma forma garantida de prevenir Alzheimer ou outras demências. Ainda assim, acrescentam a saúde cerebral a uma discussão que por muito tempo esteve concentrada principalmente no controle dos sintomas da menopausa.
O estudo foi apresentado na edição desta terça-feira 1º do jornal O Correio de Hoje.
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