Litoral do RN está entre áreas com maior contaminação por bitucas de cigarro no Brasil
02/06/2026

Bitucas de cigarro são apontadas por levantamento da Unifesp como o resíduo mais comum do planeta - Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
Levantamento científico encontrou oito pontos da costa brasileira com níveis considerados extremamente altos
As bitucas de cigarro continuam sendo o resíduo mais encontrado no planeta e colocam o Brasil entre os países mais afetados por esse tipo de poluição. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que pelo menos 4,5 trilhões de bitucas são descartadas de forma incorreta todos os anos, alcançando ambientes urbanos, praias, rios e oceanos. O levantamento também identificou oito pontos da costa brasileira classificados com contaminação extremamente alta por resíduos de cigarro, incluindo dois localizados no Rio Grande do Norte.
A pesquisa foi publicada na revista científica Environmental Chemistry Letters e é considerada uma das maiores revisões já realizadas sobre o tema. Os pesquisadores analisaram 130 estudos conduzidos em 55 países entre 2013 e 2024 para mapear a presença de bitucas em diferentes regiões do mundo e avaliar seus impactos ambientais.
Para o levantamento, a equipe do Instituto do Mar da Unifesp desenvolveu o Índice de Contaminação por Bitucas de Cigarro (ICBC), ferramenta que mede a quantidade de filtros encontrados por metro quadrado. A partir desse indicador, foi possível comparar áreas costeiras e urbanas de diversos países e identificar os locais com maior concentração desse tipo de resíduo.
Os resultados mostram que o Irã lidera o ranking mundial, com média de 38 bitucas por metro quadrado. Em seguida aparecem diversas áreas costeiras da América do Sul, especialmente no Brasil, Chile, Uruguai e Equador. Em alguns desses locais, mais da metade de todo o lixo recolhido nas praias é composta por bitucas de cigarro.
O Brasil figura entre os países com maiores níveis de contaminação identificados pelo estudo. Segundo os pesquisadores, a média registrada foi de oito bitucas por metro quadrado em oito diferentes pontos da costa nacional. Desses locais, dois estão no Rio Grande do Norte, três em Pernambuco, um no Rio de Janeiro e dois em São Paulo.
O estudo não detalha quais municípios potiguares aparecem entre os pontos de maior contaminação, mas o resultado reforça preocupações sobre a presença desse resíduo em áreas costeiras do Estado, que possui mais de 400 quilômetros de litoral e forte atividade turística ao longo do ano.
Os pesquisadores também analisaram a situação em áreas ambientalmente protegidas. Ao todo, foram avaliadas 165 unidades de conservação distribuídas em 37 países. Os dados indicaram que a densidade média de bitucas nessas áreas é até cinco vezes menor do que em regiões sem proteção ambiental. Nas categorias mais restritivas de conservação, a redução foi ainda mais expressiva.
Apesar disso, os pesquisadores alertam que a proteção legal, por si só, não impede a ocorrência da poluição.
“Mesmo assim, hotspots (pontos de alta concentração) foram encontrados dentro de áreas protegidas que incluem parques e reservas, principalmente onde há turismo intenso ou fiscalização limitada”, afirmou o engenheiro ambiental Victor Vasques Ribeiro, doutorando no Instituto do Mar da Unifesp e primeiro autor do estudo.
“A simples designação legal não basta; é crucial a redução geral do número de fumantes e também o aumento de infraestrutura de fiscalização e educação ambiental”, acrescentou.
O estudo, conforme o Estadão, destaca que os cigarros representam uma fonte relevante de contaminação química. Cada unidade contém pelo menos 7 mil compostos químicos, dos quais cerca de 150 são considerados tóxicos.
Embora o número de fumantes tenha diminuído nas últimas décadas, o consumo mundial permanece elevado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem atualmente cerca de 1,2 bilhão de fumantes no planeta, o equivalente a quase 20% da população mundial.
Um dos principais alertas dos pesquisadores é que os filtros de cigarro não são totalmente biodegradáveis, como muitas pessoas imaginam. Eles são produzidos com um polímero plástico capaz de se fragmentar ao longo do tempo e gerar microplásticos.
Essas partículas podem ser ingeridas por organismos marinhos, acumulando-se na cadeia alimentar até chegar ao consumo humano. Além disso, os resíduos químicos presentes nas bitucas são rapidamente liberados no ambiente, principalmente quando entram em contato com a água.
Segundo os pesquisadores, em poucas semanas os compostos tóxicos presentes nos filtros podem contaminar ambientes aquáticos e provocar efeitos letais em diversas espécies.
“Se as pessoas entendessem que estão jogando uma bomba química quando descartam uma bituca, talvez não agissem com tanta normalidade”, afirmou Ribeiro.
O pesquisador lembra que o número de 4,5 trilhões de bitucas descartadas anualmente foi compilado pela Organização Mundial da Saúde. Ele destacou ainda que aproximadamente 12 trilhões de cigarros são consumidos no mundo todos os anos.
Para especialistas em controle do tabagismo, a discussão sobre a poluição plástica precisa incluir os impactos causados pelos resíduos de cigarros.
“Estamos falando do item mais descartado do mundo. Em alguns lugares, mais da metade do lixo de uma praia é composta só por bitucas. Já houve casos em que praticamente 100% dos resíduos eram filtros”, afirmou André Salem Szklo, da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
“Como pensar em um tratado global contra o plástico ignorando o fortalecimento da implementação de medidas de redução do tabagismo?”, questionou.
Os autores defendem que os dados levantados pela pesquisa sejam utilizados para subsidiar negociações internacionais, incluindo as discussões da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre um tratado global de combate à poluição plástica.
Entre as medidas sugeridas estão a proibição do fumo em praias e parques, ampliação de campanhas educativas, melhorias na gestão de resíduos sólidos, fortalecimento da fiscalização ambiental e maior responsabilização da indústria do tabaco pelos impactos causados pelos filtros descartados no meio ambiente.
Para os pesquisadores, a combinação dessas ações é necessária para reduzir a presença das bitucas em ambientes naturais e evitar que bilhões de resíduos continuem chegando todos os anos às praias, rios e oceanos.
Proibição
Os parlamentares britânicos aprovaram em abril uma legislação que proíbe indivíduos hoje menores de 17 anos de comprar cigarros comuns e eletrônicos por toda a vida. A Lei do Tabaco e dos Cigarros Eletrônicos pretende impedir que qualquer pessoa nascida a partir de 1.º de janeiro de 2009 comece a fumar.
Assim que for sancionada – após o consentimento real – e se tornar lei, a regulamentação dará ao governo poderes para estender a proibição de ambientes fechados a áreas ao ar livre, como parques infantis e zonas próximas a escolas e hospitais.
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