Metade dos alunos não reconhece debate racial
27/05/2026

Pesquisa baseada no Saeb 2023 mostra diferença entre percepção de alunos e professores sobre aplicação da educação antirracista - Foto: José Aldenir
Pesquisa baseada no Saeb 2023 mostra diferença entre percepção de alunos e professores sobre aplicação da educação antirracista
Metade dos estudantes brasileiros do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio afirma não reconhecer discussões sobre desigualdades raciais em sala de aula, apesar das leis federais que determinam o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas. Os dados fazem parte do estudo inédito “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, divulgado nesta terça-feira 26.
O levantamento foi realizado a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) por pesquisadores do Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, em parceria com os institutos Instituto Alana e Geledés. Segundo o estudo, 46,6% dos estudantes do ensino fundamental e 46,8% do ensino médio reconhecem que a maioria ou todos os professores tratam frequentemente das desigualdades raciais em sala. Entre os docentes, porém, 81,6% dos professores do 9º ano e 71,6% do 3º ano afirmam abordar o tema “muitas vezes” ou “sempre”.
Para a pesquisadora do Cebrap Eliane Firmino, o descompasso entre o que os professores afirmam ensinar e o que os estudantes percebem revela limites na efetividade prática da legislação. “A legislação existe, mas os dados sugerem que sua aplicação ocorre de forma heterogênea e ainda marcada por limitações da educação brasileira”, afirmou.
A socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Cebrap, avaliou que a legislação antirracista avançou nas últimas duas décadas, mas sem universalização. “A questão é que a gente não conseguiu universalizar a aplicação dessa legislação e também que essa lei tivesse consistência transdisciplinar”, disse.
Segundo ela, a implementação ainda depende de iniciativas específicas de secretarias de educação e do Ministério da Educação. A pesquisadora afirma que houve mudanças curriculares e ações de formação de gestores e docentes, mas sem consolidação em todo o sistema educacional. “A educação antirracista ainda não se consolidou como experiência reconhecida”, apontou o estudo.
A advogada Karina Berardo, mãe de dois filhos negros, relata perceber mudanças recentes na abordagem do tema. Ela citou um trabalho escolar pedido à filha de 15 anos sobre “A herança da cultura negra na formação do Brasil”. “Houve uma ampliação do tema a partir do ensino médio. Isso é fato. Atualmente, creio que a pauta está mais em destaque e com um viés mais positivo”, afirmou.
Mesmo assim, ela avalia que ainda são poucas as discussões com foco na contribuição da população negra para a formação do País. “Eu acho que é a primeira vez que a proposta é com essa perspectiva da contribuição do negro, mas ainda acho um pouco caricato”, disse.
O estudo mostra diferenças na percepção dos estudantes conforme rede de ensino e perfil racial. Nas escolas privadas, 60,8% dos estudantes do ensino fundamental e do ensino médio afirmaram não reconhecer debates sobre desigualdades raciais. Na rede pública, os índices foram de 51,4% e 51,9%, respectivamente.
Entre estudantes brancos, 53,5% no ensino fundamental e 55,4% no ensino médio disseram não reconhecer o debate racial. Entre estudantes pretos, os percentuais foram de 50% e 51,2%; entre pardos, 50,5% e 50,2%; e entre indígenas, 49,5% e 46,8%.
“A educação antirracista não deve ser entendida apenas como uma política voltada para estudantes negros, mas como uma formação cidadã para todos os grupos sociais”, afirmou Eliane Firmino. A coordenadora do Programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, Suelaine Carneiro, defendeu maior fiscalização da aplicação das leis. “A gente precisa que haja um monitoramento, ações coordenadas, material didático e formação de professores”, disse.
Ela também ressaltou a importância do envolvimento de docentes não negros na pauta. “Quando a gente fala sobre educação das relações étnico-raciais, é para ensinar crianças negras, brancas, indígenas e amarelas sobre o respeito e também a compreensão das contribuições dos diferentes grupos raciais na construção da nação brasileira”, afirmou.
A analista de relações governamentais do Instituto Alana, Beatriz Benedito, afirmou que os resultados apontam para a necessidade de políticas permanentes de educação para relações étnico-raciais. “Por isso, é importante que governos se mobilizem”, disse.
Os pesquisadores defendem ampliação da formação continuada de professores e equipes gestoras, monitoramento permanente da implementação das leis, aumento da diversidade racial entre docentes e uso de materiais pedagógicos voltados à temática racial.
O estudo também aponta que o tratamento do tema ainda ocorre de forma episódica, especialmente em datas como o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.
Impactos econômicos
Durante apresentação dos dados, a secretária da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), Zara Figueiredo, afirmou que a desigualdade racial na aprendizagem também produz impactos econômicos nos municípios. “Quanto maior o hiato racial na aprendizagem, maior o impacto econômico”, afirmou.
Segundo ela, pesquisa encomendada à Universidade Federal de Minas Gerais analisou notas do Saeb de 2015 e dados de renda da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2025. De acordo com Zara, o estudo identificou que a eliminação das desigualdades raciais de aprendizagem poderia elevar em até 11% a renda média dos municípios. “Ou seja, você manter um hiato racial de aprendizagem, você manter diferença de aprendizagem entre estudantes brancos, sobretudo estudantes pretos, isso tem um impacto forte dentro da renda média do município”, afirmou.
Ela também relacionou o tema à chamada condicionalidade 3 do Valor Aluno Ano Resultado (VAAR), mecanismo do Fundeb que condiciona repasses ao avanço na redução das desigualdades educacionais, tanto raciais quanto socioecômicas.
“Mais de 1 mil municípios não se habilitaram para a condicionalidade 3 são aqueles que não reduziram a desigualdade de aprendizagem entre estudantes brancos e negros e estudantes mais pobres e estudantes com nível socioeconômico maior”, afirmou.
Ela defendeu políticas estruturais voltadas à equidade racial. “Para reduzir a desigualdade racial na aprendizagem, não é só formação de professor. Isso é insuficiente, porque o problema é estrutural”, afirmou. A secretária também destacou que, mesmo entre estudantes do mesmo nível socioeconômico, estudantes negros apresentam desempenho inferior em avaliações educacionais.
“O estudante negro, mesmo quando ele está no mesmo nível socioeconômico, ainda assim o nível de proficiência dele é menor”, disse. Segundo ela, fatores como baixa expectativa docente, pouca representatividade negra em materiais pedagógicos e diferenças na distribuição de afeto em sala de aula afetam a aprendizagem. “Se eu não vejo em nenhum livro ninguém igual a mim, se eu não vejo nenhuma figura de sucesso negra, é óbvio que isso tem efeito sobre a minha aprendizagem”.
Zara também criticou a ausência histórica de personagens negros em conteúdos escolares. “Vocês nunca viram um Ulisses negro, vocês nunca viram uma Marília de Dirceu negra, vocês nunca viram uma Capitu negra”, disse. Para a secretária, políticas educacionais precisam incorporar critérios permanentes de equidade racial em concursos públicos, avaliações, distribuição de recursos e organização pedagógica das redes.
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